Maurício Leite, o garimpeiro de leitores

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Maurício em Angola
Maurício em Angola

Esta conversa que tive com o educador Maurício Leite, criador do projeto Mala de Leitura, foi por email. Ele está tão, mas tão tãaao para lá e para cá pelo Brasil e até outros países, que falar com ele é uma dificuldade só! Mas esse chá de cadeira que ele me deu tem boas razões. Pois quanto mais ele está andando por aí, mais leitores ele pode estar garimpando. É esse o termo mesmo: garimpeiro. Sem conhecê-lo pessoalmente ainda, faço aqui uma imagem de Maurício de um mago ou alguém com um poder semelhante ao toque de Midas: só que em vez do ouro, qualquer pessoa que ele encontra se torna um leitor. Não à toa, ele este ano está indicado pelo seu trabalho para o prêmio Alma (Astrid Lindren Memorial Award, em homenagem à autora sueca criadora de Pippi Meia Longa): é o único brasileiro entre 238 candidatos de 68 países. O resultado será anunciado dia 25 de março em Estocolmo, com transmissão ao vivo na Feira de Bolonha, Itália, a maior da literatura infantil no mundo.

Promovendo a leitura em países de língua portuguesa e em outros países como Estados Unidos, México e Espanha, Maurício faz um intercâmbio de cultura por meio dos livros. Ele pode estar em uma escola no meio da floresta amazônica, ou em uma aldeia no continente africano: o que ele quer mesmo é de alguma forma garantir o direito de todos à leitura e ao patrimônio cultural. Parece muito? Parece óbvio? Ele prova que não é nem uma coisa, nem outra. É necessário.

Natural de Cuiabá, Mato Grosso, tem casa em Portugal, mas vive em muitos lugares. É conhecido também como o “homem da mala azul”, acessório que está sempre carregado com livros, ou seja, surpresas. Surpresas que ele não vê limites de como apresentar, pois não se importa com regras para a mediação de leitura. Vale encenações, vale usar brinquedos. Já visitou locais em que moradores nunca tinham visto um livro na vida. Precisa de muita delicadeza para se apresentar uma joia como esta, não? Assim, Maurício sempre procura conhecer o lugar em que está para chegar ao futuro leitor da forma mais afetuosa possível. Só em Angola, ele estima que tenham 500 malas azuis “multiplicadas”. Será que não inspiraria algo, poder público brasileiro? Mas Maurício é reconhecido e contratado por organizações internacionais. Aos 60 anos de idade, continua seu garimpo, esperando que o ouro seja de todos um dia. A seguir, o nosso bate-papo.

ESCONDERIJOS: Bem, primeiro eu gostaria de saber como é que começou sua história com as histórias e como isso foi crescendo até você se tornar uma referência na mediação de leitura? Quais são os tipos de trabalho que você faz hoje? Maurício Leite: Comecei em casa. Meu pai adorava gibi. Minha mãe romances, fotonovelas, livros esotéricos etc… Em minha casa havia muito música de vários estilos (os bons, é claro), muitos discos. Meu pai assinava revistas. Quando fui para escola, já sabia ler. Devo muito a meus pais o início da minha formação intelectual. Bem novinho, com a morte da minha mãe, cuidei da educação de meus irmãos menores. Só aos 40 anos fui para os Estados Unidos trabalhar e estudar inglês. Aproveito para dizer que educação e cultura a gente aprende em casa. Ou não!

ESCONDERIJOS: Quais são os tipos de trabalho que você faz hoje?

ML: O que muda são os lugares, pois o trabalho é sempre o mesmo. Levar livros e leituras para crianças e jovens, principalmente aqueles que trabalham em regiões isoladas, como as savanas africanas, a Amazônia, aldeias em Portugal … Para quem gosta de viajar, ter uma mala é obrigatório. Por isso criei a Mala de Leitura. Uma viagem ao mundo dos livros.

ESCONDERIJOS: E me fale sobre o prêmio e a sua candidatura no valioso Alma…

ML: Sou o único candidato do Brasil ao Prêmio Alma www.alma.se. Criado pelo rei da Suécia, é uma homenagem a escritora Astrid Lindgrin. Fui indicado desde o ano de 2008 pelo governo de Angola, onde trabalho com a oficina Mala de Leitura há mais de 12 anos e em várias regiões mas, em 2013, fui indicado pelo próprio prêmio, pela comissão do Alma!

ESCONDERIJOS: Qual seu maior estímulo para continuar mudando a vida das pessoas por meio dos livros?

ML: Sou educador. Alfabetizador. Sempre levei livros para o meu trabalho. Nunca me preocupei em alfabetizar e sim em formar leitores. Parto dos bons livros de imagens, livros com poucas palavras… Um dia, sem perceber, as palavras deixam de ser um mistério e passam, como as imagens, a ter um significado. Para lembrar Paulo Freire: tijolo, não é só uma palavra! Meu maior estímulo é acreditar que só através da educação poderemos transformar a vida das pessoas e consequentemente a sociedade.

ESCONDERIJOS: Dá pra citar quais lugares você já esteve com o projeto? Qual foi o lugar mais inusitado que você já fez um trabalho?

ML: Bem, acabo de chegar de uma aldeia, Kadiwéu, na divisa de Mato Grosso do Sul com Paraguai. Comecei na Ilha do Bananal, depois Pantanal de Mato Grosso, Estados Unidos, onde através da Harvard University e com apoio da Hitachi Foundation, implantei Malas de Leitura em escolas de aldeias indígenas nos estados Arizona, Novo México e Montana. Em Manhattan, fiz palestras para Columbia University, Biblioteca Pública do Queens, Escolas Bilíngues do Board of Education de New York, para El Museo del Barrio. Também em universidades do México, Portugal, França, Espanha, todos os estados brasileiros, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau. Um lugar inusitado? Fui preso no mercado do Roque Santeiro em Angola e levado para a esquadra policial. Não estava lá o chefe da esquadra. Fiquei preso com a Mala de Leitura e comecei a ler livros para os meus colegas de cela. Fui levado para lá porque o policial achou que eu estava vendendo mercadoria ilegal no mercado. Quando eu disse que eram livros ele pergungou: “Livro? O que é isso?”

ESCONDERIJOS: Qual foi a história mais emocionante que já viveu, em relação ao retorno das pessoas? Qual foi o exemplo, o retorno que você teve que mais te comoveu?

ML: Uma vez li o livro Casas, de Roseana Murray, no interior de Minas Gerais. Uma senhora começou a chora muito alto. A casa dela tinha pegado fogo. Dei o livro para ela e disse: o livro é a melhor casa que temos para morar. Ela sorriu!

ESCONDERIJOS: O que falta para seu trabalho ser ainda melhor?

ML: Não sei bem o que falta. Talvez um pouco mais de espaço aqui no Brasil. Sempre consigo apoios e incentivos internacionais. Durante quatro anos recebi uma bolsa de uma entidade não governamental americana chamada Ashoka – Innovators for the public www.ashoka.org. Digamos que recebo convites e reconhecimento de vários países do mundo e aqui tenho que trabalhar como se fosse o primeiro dia da minha vida. Sempre voltando ao zero. Todo dia atiro garrafas ao mar como se fosse o primeira vez. Mas, é apenas uma constatação e não uma reclamação. Com respeito ao trabalho, sou espartano.

ESCONDERIJOS: Onde você mora onde hoje? Quanto tempo fica viajando e fica em casa?

ML: Hoje quando me perguntam onde moro, sorrio e digo: moro no .com! Cada ano é diferente do outro. Já passei mais de oito anos sem vir ao Brasil. Moro em apart hotel, hotéis, já tive um apartamento no Brasil, outro em Moçambique e outro em Angola. No momento tenho casa em Portugal e trabalho no Brasil. Irei ainda ao México como convidado para o Congresso do IBBY Internacional Board on Books for Young Children.

Mais informações sobre ele no site http://www.maladeleitura.com

 

Um tempo atrás, o Fantástico fez uma reportagem bem bacana com ele, assim dá para visualizarmos melhor esta prática. Eles mostr, por exemplo, um município em goiania que ganhou uma linda biblioteca com teto de palha de buriti.

1 COMENTÁRIO

  1. Adoro oferecer lirovs e este seria o ideal para oferecer e0 minha irme3 de dez anos que herdou de mim o gosto pela leitura =)Pena n ter visto o livro a tempo e entretanto comprei o novo livro do Fernando Mendes, Era uma Vez… espero que goste!!beijinhos

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